Os Serviços Assistidos por Animais (SAA) compreendem um conjunto de práticas terapêuticas que utilizam a interação entre seres humanos e animais como recurso para a promoção de saúde, bem-estar e reabilitação em diferentes contextos.
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Entre as modalidades de SAA, os Tratamentos Assistidos por Animais (TAA) têm recebido crescente atenção, sendo aplicados em hospitais, escolas, instituições de longa permanência e centros de reabilitação (Chitic, Rusu & Szamosközi, 2012).
Nesses serviços, os animais atuam como co-terapeutas, desempenhando papel de facilitadores na comunicação, no vínculo e na adesão ao tratamento.
Apesar do crescente interesse pelos Serviços Assistidos por Animais (SAA), a participação de felinos em Tratamentos Assistidos por Animais (TAA) permanece pouco explorada.
A literatura disponível sobre seleção, treinamento e aplicação clínica de gatos como co-terapeutas é limitada, evidenciando lacunas quanto ao comportamento, bem-estar e respostas emocionais da espécie em contextos terapêuticos (Fedor, 2017; Kogan, Grigg & Hellyer, 2023).
O gato doméstico apresenta características que podem favorecer sua inserção em programas de TAA, como porte reduzido, adaptação a ambientes internos, comportamento geralmente silencioso e capacidade de estabelecer vínculos afetivos seletivos com seres humanos.
Essas particularidades podem ser especialmente vantajosas em ambientes hospitalares, institucionais e de longa permanência, nos quais estímulos intensos devem ser minimizados (Fedor, 2017).
No entanto, a ausência de conhecimento aprofundado sobre o comportamento felino, sua linguagem corporal e suas respostas emocionais em ambientes terapêuticos ainda limita a adoção dessa espécie, evidenciando a necessidade de estudos que descrevem protocolos de seleção, treinamento e manejo compatíveis com as necessidades etológicas dos gatos (Fedor, 2017; Kogan, Grigg & Hellyer, 2023).
Diante desse panorama, torna-se relevante discutir tanto as potencialidades quanto às limitações dessa espécie para o Tratamento Assistido por Animais com felinos, a fim de identificar caminhos para o desenvolvimento de práticas terapêuticas multiespecíficas baseadas em evidências no respeito mútuo entre humanos e animais.
Nos últimos anos, têm sido propostas diretrizes de manejo cat-friendly, baseadas na etologia e no bem-estar da espécie, que recomendam a adaptação gradual dos gatos aos ambientes de terapia, o respeito à sua linguagem corporal e a criação de espaços de fuga ou refúgio durante as sessões. Essas diretrizes são fundamentais para reduzir o estresse, prevenir comportamentos defensivos e garantir a segurança tanto do animal quanto do paciente (International Society of Feline Medicine, 2022).
Especialistas em comportamento felino também têm desenvolvido protocolos de treinamento positivo para gatos candidatos à TAA, incluindo socialização precoce, habituação a diferentes estímulos ambientais e reforço de comportamentos desejáveis, como tolerância ao toque e aproximação voluntária.
Essas estratégias visam aumentar a previsibilidade e a confiabilidade da espécie em contextos terapêuticos, respondendo às críticas históricas sobre a suposta imprevisibilidade do comportamento felino (Kogan, Grigg & Hellyer, 2023).
Do ponto de vista clínico, estudos têm demonstrado resultados positivos de tratamentos assistidos com gatos. Pesquisas recentes destacam melhorias significativas em sintomas de depressão, ansiedade e solidão, além de ganhos na qualidade de vida e no bem-estar psicológico de idosos, pacientes psiquiátricos e pessoas em isolamento social (Villalta-Gil et al., 2009; Fedor, 2017).
Conclui-se que, embora ainda haja lacunas significativas de pesquisa, as evidências disponíveis indicam que as TAA com felinos, quando realizadas sob diretrizes cat-friendly e com animais devidamente preparados, representam uma alternativa promissora para a promoção da saúde mental e da qualidade de vida em diferentes populações.
O presente estudo aplicou essas técnicas de treinamento com o propósito de analisar os desafios envolvidos no treinamento de gatos jovens e idosos para aplicação em Tratamentos Assistidos por Animais.
Neste artigo, serão analisadas as respostas comportamentais de dois felinos ao longo do processo de treinamento para Tratamentos Assistidos por Animais (TAA).
A partir da observação sistemática do desenvolvimento de duas habilidades específicas, serão consideradas: (1) a capacidade de interação social em ambientes com diferentes indivíduos e (2) a habilidade de manter-se em repouso e comando verbal em um local determinado, aguardando o comando.
Metodologia
Para a sua execução foram incluídos apenas animais clinicamente saudáveis, com perfil sociável e previamente habituados ao manejo humano, de modo a reduzir vieses relacionados à saúde ou à aversão ao contato humano.
Como instrumentos de avaliação utilizou-se o Cat Stress Score (CSS) para mensuração do estresse dos animais, além do registro sistemático da frequência e da duração das interações apresentadas pelos felinos ao longo das sessões de treinamento.
A população de estudo foi composta por felinos domésticos (Felis catus), subdivididos em dois grupos etários: um grupo jovem, representado por um animal com quatro meses de idade – gato A, felino fêmea sem raça definida, e um grupo idoso, representado por um animal com oito anos de idade – gato B, felino macho castrado da raça Sphynx.
As observações comportamentais foram realizadas durante sessões de treinamento estruturadas, conduzidas de forma padronizada para ambos os felinos, em ambiente controlado, ao longo de sessões repetidas de cinco a 10 minutos diários. As sessões incluíram atividades de interação social, permanência em local determinado e resposta a comandos verbais simples.
Felino juvenil x felino idoso
Este estudo evidencia que felinos jovens e idosos podem atuar em TAA quando critérios comportamentais individuais, história de socialização e capacidade adaptativa são considerados.
Felinos idosos apresentam maior estabilidade emocional e previsibilidade, enquanto felinos jovens demonstram elevada plasticidade e potencial de aprendizagem, especialmente por observação de modelos conespecíficos, isto é, gatos mais experientes.
O uso consistente de comando verbal, aliado a protocolos estruturados de socialização, dessensibilização gradual e reforço positivo, favorece a aprendizagem, a adaptação e a manutenção do bem-estar animal, sem sinais de estresse.
A combinação entre estabilidade comportamental, aprendizagem social e manejo ético constitui pré-requisito para interações seguras e eficazes em contextos terapêuticos, reforçando a importância de abordagens baseadas em evidências na inclusão de gatos em TAA.
Escrito por Priscila Marcondes Toinaki
Confira o artigo completo “Aprendizagem social de felinos filhotes e felinos idosos no treinamento para TAA“, na íntegra e sem custo, acessando a página 28 da edição de fevereiro (nº 318) da Revista Cães e Gatos.





