O lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) é o maior canídeo da América do Sul e uma das espécies mais emblemáticas dos biomas brasileiros. Sua distribuição abrange grande parte do território nacional, estendendo-se também pela Bolívia, Paraguai e Argentina, com ocorrências mais restritas no Uruguai e no Peru.
De pelagem alaranjada, longas pernas e hábitos solitários, exerce papel ecológico fundamental como predador de pequenos vertebrados e dispersor de sementes, contribuindo diretamente para o equilíbrio dos ecossistemas onde ocorre.
Apesar de sua relevância ecológica e cultural, o lobo-guará é classificado como “Vulnerável” (VU) à extinção no Brasil, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
Entre as principais ameaças à espécie, destacam-se a redução e fragmentação do seu habitat e os conflitos com cães. A conversão de áreas naturais em campos agrícolas e pastagens tem ampliado o contato entre animais silvestres e espécies domésticas, favorecendo conflitos e a transmissão de patógenos – uma preocupação crescente, já que os cães atuam como importantes reservatórios de doenças para a fauna nativa.
Nos últimos anos, uma dessas enfermidades, a sarna sarcóptica, tem se destacado como uma ameaça emergente à conservação do lobo-guará. Causada pelo ácaro Sarcoptes scabiei, essa doença de pele possui distribuição cosmopolita e afeta uma ampla diversidade de hospedeiros.
No Brasil, há registros em várias espécies silvestres, tanto na natureza quanto sob cuidados humanos. O número crescente de casos em lobos-guará, especialmente nos estados de São Paulo e Minas Gerais, sugere que a doença vem ganhando importância epidemiológica para a espécie.
A transmissão da sarna sarcóptica pode ocorrer tanto de forma direta, pelo contato físico entre indivíduos, quanto de forma indireta, por meio de fômites e ambientes contaminados, onde o ácaro pode permanecer viável por dias.
Registros obtidos por armadilhas fotográficas mostram a sobreposição de áreas utilizadas por cães, lobos-guará e outras espécies silvestres, sugerindo que paisagens antropizadas podem funcionar como potenciais zonas de disseminação.
Além disso, as mudanças climáticas e a degradação ambiental modificam o habitat natural da espécie, promovendo o deslocamento de indivíduos e aumentando o contato entre fauna silvestre e doméstica, o que eleva o risco de transmissão de patógenos. Apesar dessas evidências, a origem da sarna em lobos-guará permanece incerta, sendo plausíveis tanto a transmissão a partir de cães quanto o contágio por outras espécies selvagens, incluindo as invasoras.
Compreender como ocorre a infecção é essencial para avaliar seus impactos clínicos e populacionais. O Sarcoptes scabiei completa todo o seu ciclo de vida no hospedeiro. As fêmeas escavam túneis no estrato córneo da pele para depositar ovos, que eclodem em poucos dias. A presença do ácaro e de suas secreções provoca reações alérgicas que resultam em coceira intensa, inflamação e espessamento cutâneo.
Clinicamente, observam-se alopecia, descamação, crostas, hiperqueratose e liquenificação, inicialmente nos membros, com progressão para o focinho, região periocular e orelhas.
Nos casos crônicos, o quadro torna-se debilitante, levando à perda de condição corporal e à maior suscetibilidade a outras doenças. Duas formas clínicas principais são descritas em animais silvestres: a hiperqueratótica e a alopécica, associadas à hipersensibilidade do tipo I e IV, respectivamente. Embora raramente cause morte direta, a sarna compromete seriamente o bem estar e a sobrevivência dos lobos-guará afetados.
Os métodos diagnósticos para S. scabiei incluem raspagem de pele, histopatologia, sorologia e testes moleculares, cuja eficácia depende do estágio da infestação e da fase do ciclo do parasita.
Não existem tratamentos clínicos preconizados para o lobo-guará, porém há relatos da adaptação de protocolos utilizados em cães, nos quais os indivíduos apresentaram melhora clínica. No entanto, os tratamentos atuais se restringem a casos individuais, enquanto o manejo populacional e epidemiológico ainda enfrenta desafios logísticos, apesar de sua importância para o controle da doença.
Uma vez que a epidemiologia da sarna sarcóptica em espécies silvestres ainda não se encontra bem elucidada – podendo estar associada a fatores de paisagem, condições bioclimáticas e ao contato com espécies domésticas – a adoção de medidas preventivas para esta doença são dificultadas, sendo necessários novos estudos que descrevam as principais formas de transmissão do ácaro aos lobos.
Enquanto não se esclarecem todos os aspectos epidemiológicos da doença, o monitoramento contínuo das populações e a integração entre órgãos de saúde animal, instituições de pesquisa e órgãos ambientais são ações prioritárias, visando detectar precocemente novos casos e implementar medidas de manejo adequadas, reduzindo a propagação da doença e seus efeitos sobre a conservação da biodiversidade.
Diante desse cenário, a sarna sarcóptica deve ser reconhecida como uma ameaça prioritária à conservação do lobo-guará.
A adoção de protocolos diagnósticos padronizados e ações coordenadas de vigilância epidemiológica são fundamentais para compreender a dinâmica da doença e mitigar sua disseminação.
Considerando que surtos de sarna podem causar declínios populacionais expressivos – e até mesmo extinções locais em espécies já vulneráveis por fatores como perda de habitat e fragmentação – o controle dessa enfermidade é essencial para a manutenção das populações de lobos-guará e a preservação dos ecossistemas dos quais são parte indispensável.
Escrita por Heitor Alves de Oliveira, Presidente do GEAS
Revisada por Prof. Dr. Ricardo Augusto Dias, USP
Confira o artigo completo “Sarna em lobo-guará: uma ameaça emergente” na íntegra e sem custo, acessando a página 50 da edição de janeiro (nº 317) da Revista Cães e Gatos.





