A nutrição personalizada tem ganhado cada vez mais espaço na Medicina Veterinária, especialmente diante da diversidade de perfis e necessidades dos pacientes.
Durante a SACAVET, a médica-veterinária Dra. Vivan Pedrinelli abordou o tema com foco prático, reforçando que uma alimentação adequada vai muito além do rótulo.
“Quando a gente fala de alimentação adequada, não é só nutriente. A gente precisa pensar em energia, digestibilidade e aceitação — porque não adianta ter tudo perfeito se o animal não come ou não aproveita”, explicou.
Alimentação adequada vai além dos nutrientes
Segundo a palestrante, quatro pilares precisam ser considerados na formulação alimentar:
- Conteúdo nutricional;
- Conteúdo energético;
- Digestibilidade;
- Palatabilidade.
“Não adianta oferecer todos os nutrientes se falta ou sobra energia. Se não é objetivo emagrecer ou engordar, essa dieta já não está adequada”, destacou.
Além disso, a aceitação do alimento é determinante para o sucesso do manejo.
“Muitas vezes, a individualização começa justamente porque o animal não aceita bem o alimento que está sendo oferecido”.
Individualização começa pelo entendimento do paciente
A base da nutrição personalizada é conhecer profundamente o animal atendido.
“Quando a gente fala de individualização, a gente deixa de tratar ‘um cão adulto’ e passa a tratar aquele paciente específico que está na nossa frente”, afirmou.
Entre os fatores que influenciam diretamente a dieta estão:
- Espécie;
- Raça;
- Idade;
- Estado fisiológico;
- Estilo de vida;
- Presença de doenças.
A especialista destacou que o estilo de vida é um dos pontos mais negligenciados:
“A carga de atividade física, o ambiente onde o animal vive e a rotina dele influenciam diretamente a necessidade energética”.
Animais semelhantes podem ter necessidades completamente diferentes
Para ilustrar, a palestrante comparou dois cães da mesma raça e idade, mas com estilos de vida distintos.
“Eles parecem iguais, mas são completamente diferentes. Um é castrado, vive em apartamento e não passeia. O outro é ativo, não castrado e se exercita com frequência. A alimentação deles não pode ser igual”.
Essa diferença impacta diretamente na quantidade de alimento oferecida.
“Se eu não ajustar essa energia, um vai engordar e o outro pode perder peso — mesmo comendo a mesma coisa”.
Equações ajudam, mas não substituem a avaliação individual
Embora existam fórmulas para estimar a necessidade energética, elas não são universais.
“Essas equações são uma base, mas são genéricas. Nem todo animal vai se encaixar nelas”, explicou.
A palestrante destacou que alguns pacientes podem precisar de valores bem diferentes dos padrões.
“Eu tenho pacientes que consomem muito menos calorias do que o recomendado e ainda assim mantêm o peso”.
Comer menos pode gerar deficiência nutricional
Um ponto crítico da individualização é a relação entre energia e nutrientes.
“Quando o animal precisa de menos calorias, ele come menos. E aí pode não ingerir todos os nutrientes necessários, mesmo com um alimento completo”, alertou.
Isso ocorre porque os alimentos são formulados com base em consumos médios.
“Se você sai da recomendação do fabricante, precisa conferir se aquele volume ainda garante todos os nutrientes”.
Saciedade e aceitação são desafios frequentes
Animais com baixa necessidade energética, como os castrados e sedentários, costumam apresentar maior apetite.
“Às vezes é um animal que precisa de pouca energia, mas tem muita fome — e aí entra o desafio da saciedade”.
Nesses casos, aumentar o volume alimentar sem elevar as calorias é uma estratégia importante.
“Eu quero dar mais volume sem fazer o animal engordar. E isso não se resolve só aumentando a quantidade da mesma ração”.
Mix feeding é uma estratégia eficiente
A alimentação mista (mix feeding) é uma das ferramentas mais utilizadas na individualização.
“O mix feeding nada mais é do que combinar alimentos — seco, úmido ou até caseiro — para atingir o objetivo daquele paciente”.
A palestrante alertou para um erro comum na prática:
“Muita gente divide metade ração e metade sachê em gramas, mas isso está errado. A divisão precisa ser feita em calorias”.
Isso porque alimentos úmidos têm menor densidade energética.
“Se dividir errado, o animal pode emagrecer sem querer, porque está ingerindo menos calorias do que precisa”.
Alimentação caseira permite máxima personalização — mas exige cuidado
A dieta caseira é considerada o nível mais alto de individualização, pois permite controle total dos nutrientes e ingredientes.
“É onde a gente consegue realmente ajustar tudo: nutriente, ingrediente, preparo e até a forma de oferecer”, explicou.
No entanto, exige conhecimento técnico e acompanhamento.
“Não é só trocar ingredientes. Pequenas mudanças podem gerar deficiência nutricional ou alterar completamente a energia da dieta”.
Ela exemplificou:
“Trocar arroz por batata doce na mesma quantidade pode reduzir drasticamente as calorias e levar à perda de peso”.
Suplementação também deve ser personalizada
Na alimentação caseira, a suplementação é indispensável.
“O suplemento é um ingrediente essencial — não é opcional”, destacou.
Além disso, deve considerar o que já está presente no alimento.
“Se eu suplemento algo que já está no alimento, posso estar jogando dinheiro fora ou até causando excesso”.
A personalização pode chegar ao nível farmacêutico:
“Hoje a gente consegue ajustar forma, sabor, via de administração — tudo para melhorar a adesão”.
Sucesso depende do responsável
Por fim, a especialista reforçou que a personalização precisa ser viável na prática.
“Não adianta prescrever a melhor dieta do mundo se o responsável não consegue executar — seja por custo, tempo ou rotina”.
Segundo ela, adesão é parte fundamental do sucesso terapêutico.
“A melhor dieta é aquela que funciona para aquele paciente dentro da realidade do responsável”.
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